
(imagem de Sil Falqueto, no Flickr)
A casa cheirava a especiarias
e o copeiro deslizava descalço,
levitava em silêncio,
- anjo da aurora entre paredes brancas.
Crepitava na mesa a manga verde
e a esbraseada pimenta.
O dono da casa era ao mesmo tempo
inatual como um rei antigo
e simples e próximo como um parente.
Sua mulher ainda usava um diamante na narina
e em sua cabeça pousavam muitas coroas
de histórias antigas e canções de amor.
E havia a moça, pássaro, princesa,
com uma diáfana voz de sol e flores,
que apenas sussurrava.
Mas no dia seguinte
haveria talvez uma criança.
(Estava ali mesmo, naquele mundo de ouro e seda,
sob aquela diáfana voz de sol e flores.)
Ia nascer amanhã uma criança.
E a casa, no meio do campo,
estendia mil braços ternos e graves
para o céu, para o rio, para o vento,
para o país dos nascimentos,
à espera dessa criança
nua e pequenina,
que apareceria de olhos fechados
com um breve grito:
já sua alma.
E subiam para Deus fios de incenso, azuis.
(Cecília Meireles - Poesia Completa -
Poemas Escritos na Índia)
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20 de novembro:
Dia Universal da Criança.